História de Natal
Nina havia passado o dia no shopping e, por causa disso, estava exausta e mau-humorada. Decidiu ir se trancar no quarto porque não estava a fim de papo.
Nina havia passado o dia no shopping e, por causa disso, estava exausta e mau-humorada. Decidiu ir se trancar no quarto porque não estava a fim de papo.
Ela costumava gostar da época do Natal, mas, achava que ultimamente a galera estava levando muito a sério esse negócio de “presentear” a qualquer coisa viva do planeta. Era um atropelo sem tamanho, chegava a dar briga nas lojas por causa de uma peça em promoção, ou no estacionamento por uma mísera vaga.
Cadê o Espírito de Natal? Será que foi trocado por essa correria, por esse desespero consumista? Foi com a cabeça ocupada com esses pensamentos que a menina se recostou e acabou adormecendo. O legal disso é acabou tendo um sonho bastante interessante:
“Uma brisa suave soprava em seus ouvidos. Ao fundo, Nina ouvia o ruído do mar batendo vigorosamente contra a montanha. A menina abriu os olhos e, por um instante apenas, não soube dizer onde estava. Mas, em seguida, olhando em torno, percebeu que estava deitada num dos bancos de pedra que ficavam debaixo do centenário chapéu-de-sol, a porta do antigo casarão colonial, que fora palco de grandes aventuras em sua vida.
– Como é que eu vim parar aqui? – pensou.
– Talvez você esteja a sonhar... – murmurou uma vozinha brincalhona.
Quando Nina deu um salto de puro susto. Quem estava falando com ela? Foi então que olhou para cima e finalmente localizou o dono daquela voz que ela conhecia tão bem; encarapitado como um sagüi, no alto da velha árvore, lá estava ele: o pequeno pirata, João Maria de Cascais.
– João! É você! Desce já daí, seu garoto safado!
– Vejo que a maruja continua mandona como sempre...
No instante seguinte, João Maria estava sentado ao seu lado no banco e Nina tomou novo susto. Depois, mais refeita, tratou de abraçá-lo.
– Garoto! Não sabe como eu estava com saudade de você! Mas, me conte como estão todos: Anita, Tiago, Maria Conga...
– Todos estão maravilhosamente bem, com a graça de Deus, e mandaram grandes bitocas e abraços cheios de carinho prá você!
– Fico feliz que esteja aqui comigo, ainda que seja apenas em sonho...
– Um sonho é um lugar de encontro tão bom como qualquer outro, não acha? O importante não é o lugar, mas a possibilidade do encontro...
A menina concordou, balançando a cabeça, emocionada. Então, mais animada com aquela visita inesperada, resolveu matar uma curiosidade e perguntou:
– João, me diga uma coisa: como é o dia de Natal lá em cima? É muito diferente do que havia aqui quando você estava encarnado?
O menino coçou a cabeça, matutando na resposta. Daí, contou:
– Sabe que não? Quer dizer, é igual em algumas coisas, mas muito diferente, em outras.
– Como assim? – quiz saber a guria.
– Quando eu vivia aqui no casarão, quando ia chegando o Natal, minha avó D. Mirna, montava um lindo presépio que ela mandara vir de Portugal. Era uma coisa linda de se ver: eram pequenas estatuetas de madeira, pintadas a mão com o maior capricho por artesãos muito talentosos. Havia a figura de Maria, de José, mas, o mais bonito era o menino Jesus. Tinha também a bicharada da fazenda e os três Reis Magos. Na noite de Natal, a pretaiada fazia fila para passar em frente ao presépio, que ficava montado logo ali adiante, para pedir a benção ao menino Jesus. Quando dava meia-noite, nós cantávamos os hinos de louvor que o Padre Juvenal havia nos ensinado.
Nina ouvia enlevada, e enquanto ele falava, parecia que via perfeitamente aquela cena, como que se as evocasse dos recônditos de sua memória espiritual.
– Dona Mirna amava aquela celebração. Sem presépio, dizia ela, não havia Natal.
Ficaram um instante em silêncio, envolvidos naquelas lembranças tão queridas, que seus espíritos compartilhavam. Depois, João Maria prosseguiu:
– Já lá em cima, onde estamos agora, o presépio parece que está vivo dentro de cada um de nós. Não precisamos mais das figuras de madeira, porque a ‘idéia’ que ele representa, está presente em nossos corações. Nesse dia de Natal, celebramos a lembrança viva do menino Jesus, que fez o supremo sacrifício de tornar-se humano para primeiro fazer nascer e, depois com seus ensinamentos, cultivar, o espírito do amor e da fraternidade no coração da humanidade.
– Gente! Que coisa linda, João! Quem te disse todas essas coisas? – quis saber Nina, achando que o menino tinha ficado esperto ‘demais’ muito de repente.
– A Maria Conga me explicou tudo, claro! Mas, isso é só pra gente saber dizer em palavras aquilo que sente como verdade verdadeira bem dentro da alma.
– Acho que já entendi tudo direitinho... – disse a garota que, por um momento, ficou cismando, como se estivesse organizando o lugar de algumas idéias, e com isso pudesse realizar algo de bom. Por fim, foi interrompida pelo menino que já se cansara de tanta cismação.
– Olhe que já vou indo! Está na minha hora! Até um dia, minha amiga maruja e tenha um Feliz Natal! – e antes que Nina tivesse tempo de dizer qualquer coisa, ele simplesmente sumiu”.
Nina abriu os olhos e viu que estava de volta ao seu quarto cor-de-rosa. Suspirou, resignada.
Em seguida, levantou-se de um salto e saiu às carreiras, correndo como uma abilolada pela casa afora, gritando pela mãe:
– Mãe, mãe! – e mal localizou a mãe na sala, entretida com a leitura, disparou à queima-roupa – Cadê aquela caixa grande com os antigos enfeites de Natal?
A mãe pensou por um minuto:
– Deve estar lá fora, no quartinho das tranqueiras. Por quê?
Porém, Nina, ao invés de responder, engatou uma primeira e novamente saiu correndo rumo ao tal quartinho. Lá chegando, procurou um bom tempo pela caixa até encontrar a que queria. De dentro dela, retirou um esquecido tesouro: o antigo presépio que ganhara do seu amado e falecido avô, havia muito tempo atrás e que jazia esquecido e cheio de poeira.
Por toda à tarde daquela véspera de Natal, Nina ocupou-se com a montagem do seu amado presépio. E enquanto tirava a poeira acumulada ao longo de anos de descaso, de cima daquelas mimosas figuras de gesso, a menina ouvia com os ouvidos da memória a vozinha do avô quando ele contava a história do nascimento do menino Jesus.
Quando, finalmente, o presépio ficou pronto, montado com capricho numa mesinha na sala de estar, a menina voltara a sentir dentro do peito, batendo junto de seu coração, o verdadeiro espírito do Natal.
E naquela noite, quando seus convidados se reuniram em torno da árvore de Natal, recheada de presentes, Nina ficou muito feliz em vê-los elogiando seu belo presépio. E uma vez mais, todos os presentes fizeram fila diante do menino Jesus, podendo lembrar o verdadeiro motivo de estarem reunidos em confraternização naquela abençoada noite.
Por fim, Nina sentiu-se novamente feliz com seu Natal, apesar de lamentar a ausência do avô tão querido. Porque tinha em seu coração, a certeza de que, lá em cima, em algum lugar no espaço, aquele singelo presépio unia seus corações em prece.
2 comentários:
Tô vendo que a Nina vai longe, agora a gente pode acompanhar aquí pelo Blog as novas aventuras.
Muito legal, continue assim.
Bjs Ká.
Oi, adorei seu livro, quando vai lançar esse novo livro? Bjos
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